Estava eu de volta a minha cidade natal.
Entrei no bar e ao sentar-me no meu velho lugar onde todos sabiam que
era meu, pedi um Martini Rosato. Eu adorava o vermelho daquela bebida,
pois ele me lembrava sangue, fogo e paixão, substancias sobrenaturalmente
poderosas. No primeiro gole, olhei a minha volta e vi o quanto as
coisas haviam mudado. Não existiam mais os jovens felizes bebendo e
comemorando a entrada na faculdade ou os motoqueiros tatuados e com suas
jaquetas de couro que refletiam toda a luz ambiente. Ao meu redor só
haviam velhos bêbados jogados no chão. Os que ainda estavam em pé ou
ainda não haviam chegado no máximo de álcool no sangue ou estavam
brigando por um copo de alguma bebida extra forte. Haviam uns quadros na
parede onde se podia ver a inauguração do bar e algumas flores
esquecidas e espalhadas pelo bar na tentativa de dar um pouco de vida ao
ambiente. E havia eu ali no meio de todo aquele “lixo”. Quem dera eu
estar ali no lugar de um deles – pensava eu. Minha vida desmoronava a
cada dia e tudo o que eu mais queria era acabar de vez com tudo, mas eu
me segurava no ultimo gole ardente de esperança que me rasgaria a
garganta.
A minha mágoa e sede de vingança acumulada pelo tempo era
tão grande que me fizera voltar ao início de tudo, voltar a cidade e ao
principio de todo esse pesadelo que eu chamava de vida. Voltei por não
conseguir esquecer tudo o que me haviam dito e feito. Na verdade, eu ate
conseguiria conviver com isso tudo, mas tirar a minha felicidade e
liberdade, ninguém tinha o direito. Eu estava sozinho, sem nenhuma mão
amiga por perto. Eramos o mundo e eu, numa guerra onde apenas um de nós
sobreviveria: o mais forte. Quem era eu? Eu era apenas um fraco sonhador
cego e sem rumo. Eu ate sabia que era capaz de mais e que meus sonhos
eram bem maiores que tudo, mas eles estavam amarrados. Era como um
cantor incrível, digno de lotar shows trabalhando como um simples
encaixotador em uma loja de departamentos , como uma joia enterrada,
impedida de brilhar. Eu não era ninguém além do comodismo.
De
repente vi uma mulher feia, acabada pelo tempo e pela idade. Lhe
faltavam alguns dentes e seu cabelo estava em péssimo estado. Ela era a
garçonete, uma garçonete que condizia com aquele lugar. Ela colocou um
papel no mural do bar com a cara de quem fora obrigada a colocar ele
ali. Eu até a entendo, pois quem frequentava aquela espelunca, além dos
bêbados cambaleantes que eram incapazes ate de ler o rotulo de suas
próprias bebidas? Fiquei curioso e fui ver o que havia escrito naquele
papel. Para a minha surpresa era uma pequena luz de esperança. Uma
cantora incrível que eu adorava estava vindo de muito longe e se
apresentaria naquela noite. Era uma oportunidade única na minha vida!
Era claro aos meus olhos que eu estaria la. Nada me impediria de ir.
Nada a não ser minha distração. Eu havia ficado tão entretido sonhando
com aquele cartaz que não notei quando roubaram minha carteira. A aquela
altura, o bar já estava vazio.
Percorri todos os poucos bolsos que
haviam em minhas roupas e percebi que eu tinha apenas uns trocados que
dava para pagar o que eu havia consumido e talvez um prato básico de
comida. Naquele momento, toda aquela faísca de esperança e felicidade se
apagou. Tiraram meu tapete e abaixo dele não havia chão, só um enorme e
escuro vazio como meu coração, ali. Já havia perdido meu grande amor,
sido afastado de todos que amava e agora ficar também sem o que eu mais
desejava? Era demais pra mim. Era demais pra um jovem solitário. Era
completamente inaceitável. Era uma fagulha! Uma fagulha capaz de
ascender e transcender toda a raiva, ódio e rebeldia acumulada. Eu só
pensava em fazer coisas ruins. Não com todos, mas comigo mesmo. Afinal, a
pequena e quase imperceptível parte de sanidade que ainda havia em mim
me dizia que o mundo não tinha culpa e que o único a ser castigado era
eu mesmo. Levantei-me, apoiei-me no balcão do bar e de cabeça baixa
dei o ultimo gole em meu Martini. Virei-me e fui de encontro a porta e
prometi a mim mesmo que nada mais importava. Prometi que eu pagaria
todos os pecados e que iria ate o fim com isso, sem me importar com
nada, pois nada era tudo o que eu tinha.
Quando minha mão tocou a
maçaneta da porta, soltei um grito rude e rouco, seguido de uma lágrima e
libertei a fera que dormia dentro de mim. Juro que naquele momento pude
ver no reflexo do vidro da porta do bar meu rosto mudando fria e
drasticamente sua forma e meus olhos se avermelhando. Eu estava tomado
de raiva e cego de revolta.
Saí dali sabendo que eu não poderia
mais ser salvo de mim mesmo, pois esse labirinto não tinha volta. Depois
de experimentar o gosto da liberdade, impetuosidade e rebeldia suprema,
minha fera interior não descansaria ate fazer meu corpo pagar por todos
os anos que ela ficou presa, mesmo que isso levasse a eternidade.
