sábado, 2 de março de 2013

Transcedental

Estava eu de volta a minha cidade natal. Entrei no bar e ao sentar-me no meu velho lugar onde todos sabiam que era meu, pedi um Martini Rosato. Eu adorava o vermelho daquela bebida, pois ele me lembrava sangue, fogo e paixão, substancias sobrenaturalmente poderosas. No primeiro gole, olhei a minha volta e vi o quanto as coisas haviam mudado. Não existiam mais os jovens felizes bebendo e comemorando a entrada na faculdade ou os motoqueiros tatuados e com suas jaquetas de couro que refletiam toda a luz ambiente. Ao meu redor só haviam velhos bêbados jogados no chão. Os que ainda estavam em pé ou ainda não haviam chegado no máximo de álcool no sangue ou estavam brigando por um copo de alguma bebida extra forte. Haviam uns quadros na parede onde se podia ver a inauguração do bar e algumas flores esquecidas e espalhadas pelo bar na tentativa de dar um pouco de vida ao ambiente. E havia eu ali no meio de todo aquele “lixo”. Quem dera eu estar ali no lugar de um deles – pensava eu. Minha vida desmoronava a cada dia e tudo o que eu mais queria era acabar de vez com tudo, mas eu me segurava no ultimo gole ardente de esperança que me rasgaria a garganta.
A minha mágoa e sede de vingança acumulada pelo tempo era tão grande que me fizera voltar ao início de tudo, voltar a cidade e ao principio de todo esse pesadelo que eu chamava de vida. Voltei por não conseguir esquecer tudo o que me haviam dito e feito. Na verdade, eu ate conseguiria conviver com isso tudo, mas tirar a minha felicidade e liberdade, ninguém tinha o direito. Eu estava sozinho, sem nenhuma mão amiga por perto. Eramos o mundo e eu, numa guerra onde apenas um de nós sobreviveria: o mais forte. Quem era eu? Eu era apenas um fraco sonhador cego e sem rumo. Eu ate sabia que era capaz de mais e que meus sonhos eram bem maiores que tudo, mas eles estavam amarrados. Era como um cantor incrível, digno de lotar shows trabalhando como um simples encaixotador em uma loja de departamentos , como uma joia enterrada, impedida de brilhar. Eu não era ninguém além do comodismo.
De repente vi uma mulher feia, acabada pelo tempo e pela idade. Lhe faltavam alguns dentes e seu cabelo estava em péssimo estado. Ela era a garçonete, uma garçonete que condizia com aquele lugar. Ela colocou um papel no mural do bar com a cara de quem fora obrigada a colocar ele ali. Eu até a entendo, pois quem frequentava aquela espelunca, além dos bêbados cambaleantes que eram incapazes ate de ler o rotulo de suas próprias bebidas? Fiquei curioso e fui ver o que havia escrito naquele papel. Para a minha surpresa era uma pequena luz de esperança. Uma cantora incrível que eu adorava estava vindo de muito longe e se apresentaria naquela noite. Era uma oportunidade única na minha vida! Era claro aos meus olhos que eu estaria la. Nada me impediria de ir. Nada a não ser minha distração. Eu havia ficado tão entretido sonhando com aquele cartaz que não notei quando roubaram minha carteira. A aquela altura, o bar já estava vazio.
Percorri todos os poucos bolsos que haviam em minhas roupas e percebi que eu tinha apenas uns trocados que dava para pagar o que eu havia consumido e talvez um prato básico de comida. Naquele momento, toda aquela faísca de esperança e felicidade se apagou. Tiraram meu tapete e abaixo dele não havia chão, só um enorme e escuro vazio como meu coração, ali. Já havia perdido meu grande amor, sido afastado de todos que amava e agora ficar também sem o que eu mais desejava? Era demais pra mim. Era demais pra um jovem solitário. Era completamente inaceitável. Era uma fagulha! Uma fagulha capaz de ascender e transcender toda a raiva, ódio e rebeldia acumulada. Eu só pensava em fazer coisas ruins. Não com todos, mas comigo mesmo. Afinal, a pequena e quase imperceptível parte de sanidade que ainda havia em mim me dizia que o mundo não tinha culpa e que o único a ser castigado era eu mesmo. Levantei-me, apoiei-me no balcão do bar e de cabeça baixa dei o ultimo gole em meu Martini. Virei-me e fui de encontro a porta e prometi a mim mesmo que nada mais importava. Prometi que eu pagaria todos os pecados e que iria ate o fim com isso, sem me importar com nada, pois nada era tudo o que eu tinha.
Quando minha mão tocou a maçaneta da porta, soltei um grito rude e rouco, seguido de uma lágrima e libertei a fera que dormia dentro de mim. Juro que naquele momento pude ver no reflexo do vidro da porta do bar meu rosto mudando fria e drasticamente sua forma e meus olhos se avermelhando. Eu estava tomado de raiva e cego de revolta.
Saí dali sabendo que eu não poderia mais ser salvo de mim mesmo, pois esse labirinto não tinha volta. Depois de experimentar o gosto da liberdade, impetuosidade e rebeldia suprema, minha fera interior não descansaria ate fazer meu corpo pagar por todos os anos que ela ficou presa, mesmo que isso levasse a eternidade.