quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Coração disparado


Eu decidi sumir. Desesperado eu decidi que não queria mais existir. Naquele momento eu era incapaz de sentir meu coração de tão rápido que ele batia. Acelerado, ele me trazia a incerteza. Nada era certo. A mesma boca que dizia que me amava, era a mesma que me odiava e eu, tolo sempre acreditava. Quantas vezes não me peguei no meio da madrugada recolhendo os cacos que meu coração deixava ao lado da cama?! Depois de uma noite de devaneios e culpas jogadas em mim por mim mesmo, eu afundava. A cada decepção você cresce ou afunda um pouco mais. Tive um pouco dos dois e a parte mais difícil era me despedir de algo que eu não queria me despedir. Esse sentimento não me fazia bem, mas fazia meu coração disparar, o estômago tremer, a garganta secar e o coração acelerar, de novo. O medo é a parte mais sombria do ser humano. Ele acorda cada canto do seu corpo e te faz fazer coisas que são você jamais faria. 
Às vezes é preciso perder pra poder ganhar. Deixar para traz algo que momentaneamente te faz bem, mas que te põe em corda bamba e a luta do cérebro com o coração é constante! Eu olho nos seus olhos e não consigo mais sentir nada, pois meu coração está acelerado. Não consigo te ouvir pois minha respiração está ofegante. Eu penso em você, mas não consigo te ver, pois estou tremulo. Minha cabeça gira e dança quando não deveria dançar. Esse é meu adeus. Não posso dizer até breve, pois a incerteza do amanhã me amedronta. E o coração dispara novamente.

A melhor parte de mim é quando tenho você. A calma, o cheiro doce de girassóis do campo, a brisa sobre meus cabelos estão sobre mim quando se trata de você. E quando se trata de você, meu coração também dispara. Impetuoso, nada pode me parar. Me torno meu pior inimigo. Nada faz sentido a não ser caminhar descalço em brasas para chegar até você. Eu venho caminhando esse tempo todo esperando você me ver e me notar, mas você não está mais aqui de mãos dadas comigo e por isso meu coração dispara.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Somebody said you got a new friend 
but does she love you better than I can?
There's a big black sky over my town 

and I know where you're at.
I bet he's around and yeah I know it's stupid,
but I just got to see it for myself.
I'm in the corner, watching you kiss him

and I'm right over here, why can't you see me.
I'm givin' it my all but I'm not the guy you're takin' home 

and I keep dancing on my own."

Querido Diário - Parte 1

Era verão, mas fazia frio. As folhas não estavam nas árvores, nem no chão. Poucos pássaros cantavam e o vento frio do oeste fazia barulho entre as janelas. Bati a porta e joguei-me na cama de molas macias de peito virado para o teto. A angustia me incomodava como um nó apertado na garganta. Nada parecia no lugar. Na verdade tudo que eu via a minha frente era o caos. Quando me sentia fechado, preso a algo bom que não me fazia bem, percebia que a vontade de voar era maior que a possibilidade de mudar. Lembro-me de caminhar à margem das ondas pedindo para que algo mudasse, eu queria que as coisas fossem melhores, talvez diferentes. Em resposta, o vento e o cheiro do mar me traziam paz e eu sabia que tudo ficaria bem outra vez. Eu estava em casa, como andorinhas de volta ao ninho, mas tudo ainda era estranho. Tudo era muito recente. A paz vinha e voltava como as ondas do mar agitado. Por horas eu ficava ali sentado tentando ouvir alguma resposta de mim mesmo, mas eu não conseguia pensar em nada. Dúvidas e mais dúvidas me sufocavam a cada segundo. Esse sentimento fazia com que a paz fosse uma onda que vinha e não voltava, estabelecia território ali na minha mente que não conseguia se desligar. Quando eu me sentia sozinho, percebia que a beleza que me diziam ter, de nada valia. Ela era um presente dado a mim e que seu valor só cabia a mim mesmo. Era intransferível. Não era moeda de troca. Não comprava felicidade, não comprava a paz, mas abria portas. Portas a beira de precipícios e dar mais um passo era escolha só minha. Percebi que ser alguém melhor fazia com que essa beleza fosse um detalhe a mais, algo como uma carta na manga e não a parte mais importante de mim. Carregar a beleza e sentir-se sozinho era quase que um ultraje, pensava eu. De que adiantava? Percebi que estar sozinho era um fardo a se carregar e que enquanto eu não aceitasse esse fardo, ele só me traria dor e cansaço.
Quando eu achava que estava apaixonado, entendia muito mais sobre meu lado escuro do que sobre o amor. Esquecia, por vezes, de mim mesmo em prol de outrem. O principal não deveria ficar de lado, mas ficava, estático, até que algo em minha mente despertasse para a realidade e o fim trágico chegava. O sofrimento não durava muito, mas tempo suficiente para me ensinar algo. Nada nem ninguém nunca ia superar a forma com que eu achava merecer ser tratado. Fui ensinado que eu mereço sempre mais. Talvez eu só estivesse escolhendo errado ou me precipitando. A intensidade caminhava ao meu lado como o vento. Eu não a via, não a podia tocar, mas sabia que estava sempre ali presente. Eu, explosivo como um vulcão e intenso como uma aurora boreal. Esse excesso de liberdade e de intensidade talvez afastasse as pessoas, que rasas, acabavam sempre se tornando uma decepção.
Então o sol nasceu. Os raios passavam pelas frestas da janela e eu percebi que não havia pregado o olho. As horas passaram tão depressa que as lagrimas secaram mais rápido que o sereno que caíra durante a madrugada. 
"Um fogo 
devora um 
outro fogo. 
Uma dor 
de angústia 
cura-se 
com outra."

Destino

Sentado em uma cadeira branca com borboletas pretas, em frente à janela eu sentia o vento e o observava. Nada parecia igual, mas era novo. Um frescor de roupa nova ecoava de suas palavras. Tudo se encaixava desde que estivéssemos ali naquele mundo criado por nós e para nós. No meio do caos ele fazia sentido, era meu momento de lucidez. Mesmo no mundo real ele fazia mais sentido. A energia e o cheiro de roupa nova entravam em minhas narinas e me viciavam. Qualquer minuto sem seu cheiro era desesperador. Era extinto. Era destino.
No primeiro momento apenas o observava como um pintor renascentista observa sua nova obra recém finalizada. Seu cabelo levantado para trás, sua barba cautelosamente desenhada no tom de loiro carmim dava espaço para seus lábios rosados e delicadamente esculpidos. Seu nariz pouco achatado carregava um adorno metálico que me lembrava uma ferradura no tamanho perfeito, mas nada disso se comparava seus olhos. Eram como malas de viagem azul-acinzentadas que carregavam paixão, sonhos, ternura e muito sacrifício. Sacrifício por tudo que ele acreditava. Era desumano. Um espécime único.  E eu, um mero humano, não conseguia parar de observá-lo. Nem nos meus melhores sonhos eu havia visto algo como ele.
No segundo momento eu comecei a decifra-lo e a entende-lo. Sua energia percorria milhares de quilômetros e podia ser tocada como se estivesse em minha frente, imposta. Meus olhos se dividiam entre a visão da janela afora e a imagem daquele ser. Nada precisava ser feito, tudo se encaixava naturalmente como o abraço que só existia em meus pensamentos. Fechar os olhos era conseguir vê-lo e  senti-lo.
Ele não precisava me tocar. O fato do meu cérebro criar ilusões de que ele estava ali comigo, me faziam sentir uma sensação gostosa na barriga, como se ela estivesse vazia e ao mesmo tempo com vida própria. Nos meus pensamentos ele era imperfeito, mas feito para mim. Uma chama acesa e flamejando, me hipnotizando e me devolvendo à realidade outrora.
Qual a intensidade que vinte e quatro horas podem te provocar? Talvez o suficiente para saber que era o que eu queria sentir todos os dias. Eu só queria ser invisível estar ali ao seu lado, ser um anjo da guarda da vida real. Observá-lo em seu trabalho, o acompanhar até chegar em casa, o ver dormindo e satisfazer-me vendo ele bem e seguro. Mas se eu me fizesse real, talvez poderia me sentir em casa em seus braços.
Eu nunca entendi o destino, mas nunca deixei de acreditar que ele já cuidou de tudo. Tudo já estava escrito e preparado. Ninguém acontece por acaso. Talvez tudo já esteja ensaiado e eu ensaiei a frase certa pra dizer que nada pode te afastar de mim se o meu pensamento está em você. E está. É destino.