domingo, 14 de julho de 2013

Nebraska

Só havia um lugar que eu queria estar naquele momento. Era um lugar já visto varias vezes, mas em forma real eu nunca havia estado lá. Era uma estrada de chão, sem nenhum atrativo, só com milharais enormes como paisagem. Esse lugar, que me arrepiou e me fez chorar tantas vezes, era um lugar deserto, mas mágico. Havia alguma coisa naquele lugar... Alguma coisa, principalmente, sobre mim. Lá, eu tinha impressão de ser minha casa. Esse lugar fazia-me lembrar de tudo o que passei, tudo o que fiz e tudo que eu sou, se é que eu sei quem sou. Nos meus sonhos, que pareciam reais, eu estava lá. Juro que ainda posso ouvir o barulho dos pássaros, do vento batendo no milharal e o barulho dos meus pés amassando aquele chão de pedras. Nesse sonho, me via parado no meio daquela estrada, sentindo o vento em meu rosto, quando de repente, senti uma mão se entrelaçando nas minhas. Senti aquele cheiro e aquela pele que eu já havia sentido antes. Eu sabia quem era e por isso não tirei os olhos da estrada. Com aquela pessoa, eu me sentia bem ali. Mal sabia ela que tinha meu coração e minha alma em suas mãos. E mal sabia eu que essa era a minha pior escolha. Na verdade, não era uma escolha. Eu não tinha saída além de esperar o fim trágico daquele sonho.

Um caminho, um grito sufocado de desapego. A essa altura da vida, meu coração recusava cada gota de gentileza, de carinho e de afeto. Me enojava. Era como um nó no meio da garganta. Aquilo me incomodava só de ouvir. O som dessas palavras carinhosas tinha uma cor branca. Cor de crânios. Era o mais próximo que eu conseguia comparar. E o cheiro? Cheiro de lodo molhado e frio. Um cheiro que me provocava calafrios e faziam meus pelos voarem a ponto de quase saírem de meu corpo. Nada me faria querer provar aquele sentimento outra vez. Nada nem ninguém. Ninguém merecia o gosto salgado das minhas lágrimas. A distância matou todas as vãs tentativas de reascender essa chama quase apagada em mim, mas havia música. No meio de toda confusão e tragédia, ela sempre estava lá. E sempre esteve aqui também. Não há nada no mundo capaz de me fazer sentir o que a música faz. Sempre odiei as pessoas que associam músicas umas as outras. Algo tão magnífico assim não merecia ser comparado a simples humanos, pensava eu. Ela era maior, era grandiosa. As pessoas (tolas) sempre escolhem as melhores músicas para lembrar de alguém. E eu? Eu era o pior dos tolos. Sempre associava músicas a pessoas, momentos e à minha vida. Deixei de ouvir inúmeras músicas incríveis por lembrar-me de pessoas que nem estavam mais em minha vida. Pessoas que já não valiam à pena. Ela brotava de uma fonte em mim, que mal sabia eu que existia. Não tive a sorte de nascer num berço musical, mas isso não me impediu de me apaixonar por ela.
Saudades. Era a única coisa que eu sentia. Não só da pessoa, mas do momento, da estrada, do vento... de algo que nem real era. Não houve um segundo que eu não tivesse pensado nela. Havia alguma coisa naquela estrada sobre nos dois, alguma coisa que me fazia querer viver aquele momento todos os dias. Era único e mágico como o que eu sentia. Nada me sobrou, nada além da ausência. Meu cérebro corrigia as linhas que o meu coração escrevia. Eu não deveria sentir saudades, eu não deveria me importar. Eu deveria só seguir em frente e então me vi naquela estrada, sozinho outra vez. Venho me mantendo nessa estrada, pois nela é meu lugar e eu sinto que como da primeira vez, uma mão vai se entrelaçar na minha e que dessa vez vai ser pra sempre, um pra sempre que não cabe a mim detalhar.

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