N uma fria noite de janeiro de 1822, a despeito do clima, duas mil e quinhentas pessoas estavam reunidas no grande salão de bailes do novo Hotel Pensilvânia, em Nova York, esperando por ela. Um desfile de belos vestidos, finos ternos e as melhores bebidas eram servidas. Do lado de fora a rua se tornara uma passarela para carros importados e nacionais, novos e usados que não paravam de chegar. Um buffet completo e os melhores garçons, juntamente com as musicas de excelente qualidade tornavam o baile animado. As pessoas haviam se reunido esperando por sua presença. Mal sabia ela a influência que uma mulher da família real tinha sobre a sociedade, mas as responsabilidades e o titulo de princesa a esmagavam e sufocavam a cada compromisso. Ela já não tinha voz, não podia ser ela mesma um dia sequer, pois haviam pessoas ao seu lado para controlar seus dias desde o acordar ao deitar-se. Ela só queria controlar o fluxo de sua vida sem a interferência de ninguém e ficar sozinha por alguns instantes, mas que estes não fossem as poucas horas de sono que tinha. Ela queria viajar, tocar seu violão em alguma praça e observar os pombos comendo as migalhas que lhes jogavam, os casais namorando, as crianças brincando, mas tudo isso era uma utopia.
Quando o carro chegou ao hotel, ela desceu com a ajuda de seus guardas e dirigiu-se à porta do baile e o seu nome foi anunciado. As pessoas olharam para ela e iam se afastando uma por uma, abrindo um corredor até o palco para que os guardas reais e ela passassem. Uma chuva de olhares diversos ia caindo sobre a princesa. Alguns invejavam seu vestido, seus sapatos, sua pele, seus cabelos ou sua vida, mas mal sabiam eles que quem os invejava era ela que daria tudo para ser livre como eles. Outros a olhavam com prestigio pelo seu nome, sua posição social e pelo poder que tinha. Poder, por sinal, que de nada valia. De que adiantava ter todo o poder e estar presa dentro de si mesma?
Ao chegar no palco, esperavam que ela os dissesse que era um prazer estar ali, o que esperava fazer por eles ou a quantidade de empregos que o novo hotel traria para a cidade. Ela estava tão desesperada por um gole amargo de solidão que de sua boca saiu apenas um singelo e amargurado "Boa Noite". As palavras que sua mãe desferira antes de chegar ao hotel quando percebeu que havia algo de errado com a princesa, ecoavam em sua cabeça desesperando-a cada vez mais. "Você sabe que todos dependem de você e anseiam por sua presença. Você nasceu para ter obrigações e compromissos. Faça isso por seu pai que já não se encontra entre nós. Não nos decepcione."
Ela saiu correndo em direção a porta. Um homem estranho com um chapéu que lhe cobria o rosto segurou-me pelo braço, deu-lhe um vidrinho pequeno e escuro e disse:
_Somente isso lhe dará o que tanto procura!
Ao chegar à calçada, viu que o carro estava lá estacionado e vazio pois o guarda que cuidava do carro havia ido ao banheiro. Ela entrou no carro, rodou a chave que ainda estava la e deu partida. Estava tão sufocada e amargurada que decidiu ser livre de uma vez. Soltou o volante, fechou os olhos e deixou que a liberdade a guiasse. Ela a guiou até o lago que ficava numa praça perto do hotel. O carro atravessou uma mureta de proteção e lançou-se em direção ao lago. A água penetrava em seu corpo como milhões de agulhas espalhadas. Mesmo com toda dor ela continuava ali, de olhos fechados, submergindo centímetro por centímetro junto aos seus medos e tristezas. Ela já estava gostando da dor pois era a única coisa que pertencia somente a ela e que ninguém podia controlar. Foi quando a dor aumentou e junto com ela o frio. Vozes desesperadas começaram a ecoar em seus ouvidos tirando-a da água. Puseram-na um casaco de pele pesado e desconfortável, porém bem quente. Carregaram-na no colo e quase desacordada vira a face assustada de sua mãe que não compreendera e reprovara a sua atitude.
Levaram-na até um quarto luxuoso do hotel e deitaram-na em uma das camas e a princesa continuava calada. Adormeceu ali mesmo, na cama de um hotel. Ela acordou com sua mãe e suas criadas tentando arrumar seu cabelo, escolhendo um vestido e falando sobre um novo compromisso, uma nova aparição em publico, ignorando o terror da noite passada. A princesa levantou-se, virou-se de costas, vestiu o lindo vestido, agachou-se frente ao criado-mudo e pegou o frasco pequeno que o estranho homem avia lhe entregado e tomou todo o seu conteúdo. Levantou-se, sentiu uma dor no peito e caiu sobre a cama. As vozes começaram a ficar distantes e a única coisa que ela conseguia ouvir eram os doces sons das batidas do seu coração, cada vez mais lentas. Aquele poderoso veneno havia tirado a vida de uma futura rainha.
Dois dias depois, após seu sepultamento estava la para quem quisesse ver o que sobrou da princesa, além de seus sonhos eternos de liberdade. Rosas brancas, grandes e pequenas encima de uma lápide branca de mármore esculpida onde se podia ler: "aqui jaz uma princesa, agora livre".
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