sábado, 23 de abril de 2016

Porta Retrato

Um porta retrato branco moldado e esculpido a mão. Creio que ele havia sido feito antes de eu existir e isso o tornava ainda mais incrível. Meus olhos o observam fixamente por longos instantes. Sentado na cadeira de madeira maciça cor de vinho me pego observando tudo ao meu redor. Juro que posso ouvir e sentir o cheiro de cada som. Quatro cantos brancos acinzentados. Cores perdidas pelo tempo. Lá fora chove. Pela fresta na janela cada gota de chuva ecoa acompanhada pelo vento de inverno que balança a cortina bege corroída. Olho para o outro lado e vejo uma fresta de luz que invade o cômodo e o cheiro de mofo. Uma luz amarelada e fraca já quase apagada. É só o que se vê marcando e acentuando o carpete quase nunca pisado. O cheiro da Madeira velha, do mofo e da terra molhada entram em minhas narinas desesperadas naquele instante. Vinte e dois. Vinte e dois fios de cabelo pelo chão. Tenho tempo o suficiente para dividir meu cérebro em varias partes o fazendo olhar para dentro de mim e contar fio por fio. Não parecem ser meus, mas minha presença aqui é única. Eu não estou sozinho. Há mais alguém, mas ainda assim é unica. Eu sinto o calor de sua presença emaranhada entre lençóis de seda e o travesseiro de puro algodão. Seu cheiro e sua presença são inconfundíveis. Uma presença adormecida após uma noite inteira de muito suor, êxtase e calafrios. Salivo e  por um instante sinto seu gosto. Seu corpo ainda percorre cada papila gustativa em minha língua. Eu havia estado junto a ele no emaranhado, mas neste momento eu observo cada detalhe presente. Essa sensação de corpo adormecido e extasiado não sai de mim. Me levanto, pego uma carteira de cigarro e só aí noto que como "ele" eu também estou nu. A sensação de liberdade acordou. Caminho silenciosamente até a janela, pego o isqueiro e acendo um cigarro. Meu pulmão vai se abrindo para cada milímetro de fumaça entrar. A fumaça vai se desfazendo entre o vento e as gotas de chuva. A mistura do êxtase, do suor, da nicotina e do meu cérebro pulsando a mil me fazem flamejar. Talvez eu tenha criado essa palavra, mas é a mais próxima comparação possível. Me viro novamente para a janela e fico ali esquecendo de tudo e de todos e deixando todos esses detalhes entrarem em meu corpo e fazerem parte de mim. O calor aumenta e posso sentir seu corpo se juntando perfeitamente ao meu. Seus braços me envolvendo e sua boca tocando a minha nuca. Meu pescoço absorve sua respiração cerrada. O som de sua respiração me fazem querer estar sempre vivo, sempre ali misturado a sua pele e o mofo do quarto. A cada deslizar de suas mãos, uma parte de mim acorda e flameja. Agora estou aqui paralisado, tentando desligar meu cérebro e deixar ligado cada sentido em meu corpo. Quero ouvir, sentir e presenciar tudo ali. Um momento simples, mas único. Um instante eternizado na memória como as antigas fotografias do porta retrato branco.

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