quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Querido Diário - Parte 1

Era verão, mas fazia frio. As folhas não estavam nas árvores, nem no chão. Poucos pássaros cantavam e o vento frio do oeste fazia barulho entre as janelas. Bati a porta e joguei-me na cama de molas macias de peito virado para o teto. A angustia me incomodava como um nó apertado na garganta. Nada parecia no lugar. Na verdade tudo que eu via a minha frente era o caos. Quando me sentia fechado, preso a algo bom que não me fazia bem, percebia que a vontade de voar era maior que a possibilidade de mudar. Lembro-me de caminhar à margem das ondas pedindo para que algo mudasse, eu queria que as coisas fossem melhores, talvez diferentes. Em resposta, o vento e o cheiro do mar me traziam paz e eu sabia que tudo ficaria bem outra vez. Eu estava em casa, como andorinhas de volta ao ninho, mas tudo ainda era estranho. Tudo era muito recente. A paz vinha e voltava como as ondas do mar agitado. Por horas eu ficava ali sentado tentando ouvir alguma resposta de mim mesmo, mas eu não conseguia pensar em nada. Dúvidas e mais dúvidas me sufocavam a cada segundo. Esse sentimento fazia com que a paz fosse uma onda que vinha e não voltava, estabelecia território ali na minha mente que não conseguia se desligar. Quando eu me sentia sozinho, percebia que a beleza que me diziam ter, de nada valia. Ela era um presente dado a mim e que seu valor só cabia a mim mesmo. Era intransferível. Não era moeda de troca. Não comprava felicidade, não comprava a paz, mas abria portas. Portas a beira de precipícios e dar mais um passo era escolha só minha. Percebi que ser alguém melhor fazia com que essa beleza fosse um detalhe a mais, algo como uma carta na manga e não a parte mais importante de mim. Carregar a beleza e sentir-se sozinho era quase que um ultraje, pensava eu. De que adiantava? Percebi que estar sozinho era um fardo a se carregar e que enquanto eu não aceitasse esse fardo, ele só me traria dor e cansaço.
Quando eu achava que estava apaixonado, entendia muito mais sobre meu lado escuro do que sobre o amor. Esquecia, por vezes, de mim mesmo em prol de outrem. O principal não deveria ficar de lado, mas ficava, estático, até que algo em minha mente despertasse para a realidade e o fim trágico chegava. O sofrimento não durava muito, mas tempo suficiente para me ensinar algo. Nada nem ninguém nunca ia superar a forma com que eu achava merecer ser tratado. Fui ensinado que eu mereço sempre mais. Talvez eu só estivesse escolhendo errado ou me precipitando. A intensidade caminhava ao meu lado como o vento. Eu não a via, não a podia tocar, mas sabia que estava sempre ali presente. Eu, explosivo como um vulcão e intenso como uma aurora boreal. Esse excesso de liberdade e de intensidade talvez afastasse as pessoas, que rasas, acabavam sempre se tornando uma decepção.
Então o sol nasceu. Os raios passavam pelas frestas da janela e eu percebi que não havia pregado o olho. As horas passaram tão depressa que as lagrimas secaram mais rápido que o sereno que caíra durante a madrugada. 

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