Era verão, mas fazia frio. As
folhas não estavam nas árvores, nem no chão. Poucos pássaros cantavam e o vento
frio do oeste fazia barulho entre as janelas. Bati a porta e joguei-me na cama
de molas macias de peito virado para o teto. A angustia me incomodava como um
nó apertado na garganta. Nada parecia no lugar. Na verdade tudo que eu via a
minha frente era o caos. Quando me sentia fechado, preso a algo bom que não me
fazia bem, percebia que a vontade de voar era maior que a possibilidade de
mudar. Lembro-me de caminhar à margem das ondas pedindo para que algo mudasse,
eu queria que as coisas fossem melhores, talvez diferentes. Em resposta, o
vento e o cheiro do mar me traziam paz e eu sabia que tudo ficaria bem outra
vez. Eu estava em casa, como andorinhas de volta ao ninho, mas tudo ainda era
estranho. Tudo era muito recente. A paz vinha e voltava como as ondas do mar
agitado. Por horas eu ficava ali sentado tentando ouvir alguma resposta de mim
mesmo, mas eu não conseguia pensar em nada. Dúvidas e mais dúvidas me sufocavam
a cada segundo. Esse sentimento fazia com que a paz fosse uma onda que vinha e
não voltava, estabelecia território ali na minha mente que não conseguia se
desligar. Quando eu me sentia sozinho, percebia que a beleza que me diziam ter,
de nada valia. Ela era um presente dado a mim e que seu valor só cabia a mim
mesmo. Era intransferível. Não era moeda de troca. Não comprava felicidade, não
comprava a paz, mas abria portas. Portas a beira de precipícios e dar mais um
passo era escolha só minha. Percebi que ser alguém melhor fazia com que essa
beleza fosse um detalhe a mais, algo como uma carta na manga e não a parte mais
importante de mim. Carregar a beleza e sentir-se sozinho era quase que um
ultraje, pensava eu. De que adiantava? Percebi que estar sozinho era um fardo a
se carregar e que enquanto eu não aceitasse esse fardo, ele só me traria dor e
cansaço.
Quando eu achava que estava apaixonado, entendia muito mais
sobre meu lado escuro do que sobre o amor. Esquecia, por vezes, de mim mesmo em
prol de outrem. O principal não deveria ficar de lado, mas ficava, estático, até
que algo em minha mente despertasse para a realidade e o fim trágico chegava. O
sofrimento não durava muito, mas tempo suficiente para me ensinar algo. Nada
nem ninguém nunca ia superar a forma com que eu achava merecer ser tratado. Fui
ensinado que eu mereço sempre mais. Talvez eu só estivesse escolhendo errado ou
me precipitando. A intensidade caminhava ao meu lado como o vento. Eu não a
via, não a podia tocar, mas sabia que estava sempre ali presente. Eu, explosivo
como um vulcão e intenso como uma aurora boreal. Esse excesso de liberdade e de
intensidade talvez afastasse as pessoas, que rasas, acabavam sempre se tornando
uma decepção.
Então o sol nasceu. Os raios passavam pelas
frestas da janela e eu percebi que não havia pregado o olho. As horas passaram
tão depressa que as lagrimas secaram mais rápido que o sereno que caíra durante
a madrugada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário