Sentado em uma cadeira branca com borboletas pretas, em frente à janela eu sentia o vento e o observava. Nada parecia igual, mas era novo. Um frescor de roupa nova ecoava de suas palavras. Tudo se encaixava desde que estivéssemos ali naquele mundo criado por nós e para nós. No meio do caos ele fazia sentido, era meu momento de lucidez. Mesmo no mundo real ele fazia mais sentido. A energia e o cheiro de roupa nova entravam em minhas narinas e me viciavam. Qualquer minuto sem seu cheiro era desesperador. Era extinto. Era destino.
No primeiro momento apenas o observava como um pintor renascentista observa sua nova obra recém finalizada. Seu cabelo levantado para trás, sua barba cautelosamente desenhada no tom de loiro carmim dava espaço para seus lábios rosados e delicadamente esculpidos. Seu nariz pouco achatado carregava um adorno metálico que me lembrava uma ferradura no tamanho perfeito, mas nada disso se comparava seus olhos. Eram como malas de viagem azul-acinzentadas que carregavam paixão, sonhos, ternura e muito sacrifício. Sacrifício por tudo que ele acreditava. Era desumano. Um espécime único. E eu, um mero humano, não conseguia parar de observá-lo. Nem nos meus melhores sonhos eu havia visto algo como ele.
No segundo momento eu comecei a decifra-lo e a entende-lo. Sua energia percorria milhares de quilômetros e podia ser tocada como se estivesse em minha frente, imposta. Meus olhos se dividiam entre a visão da janela afora e a imagem daquele ser. Nada precisava ser feito, tudo se encaixava naturalmente como o abraço que só existia em meus pensamentos. Fechar os olhos era conseguir vê-lo e senti-lo.
Ele não precisava me tocar. O fato do meu cérebro criar ilusões de que ele estava ali comigo, me faziam sentir uma sensação gostosa na barriga, como se ela estivesse vazia e ao mesmo tempo com vida própria. Nos meus pensamentos ele era imperfeito, mas feito para mim. Uma chama acesa e flamejando, me hipnotizando e me devolvendo à realidade outrora.
Qual a intensidade que vinte e quatro horas podem te provocar? Talvez o suficiente para saber que era o que eu queria sentir todos os dias. Eu só queria ser invisível estar ali ao seu lado, ser um anjo da guarda da vida real. Observá-lo em seu trabalho, o acompanhar até chegar em casa, o ver dormindo e satisfazer-me vendo ele bem e seguro. Mas se eu me fizesse real, talvez poderia me sentir em casa em seus braços.
Eu nunca entendi o destino, mas nunca deixei de acreditar que ele já cuidou de tudo. Tudo já estava escrito e preparado. Ninguém acontece por acaso. Talvez tudo já esteja ensaiado e eu ensaiei a frase certa pra dizer que nada pode te afastar de mim se o meu pensamento está em você. E está. É destino.

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